Linguagens · poesia contemporânea · lirismo amoroso
Migalhas Entre a toalha branca e um bule de café seria inapropriado dizer eu não te amo mais. Era necessário algo mais solene, um jardim japonês para as perdas pensadas, um noturno de tempestade para arrebentar de dor, uma praia de pedras para chorar em silêncio, uma cama alta para o incenso da despedida, uma janela dando para o abismo. No entanto você abaixa os olhos e recolhe lentamente as migalhas de pão sobre a mesa posta para dois. MARQUES, A. M. A vida submarina. São Paulo: Cia. das Letras, 2021.
Nesse poema, a representação do sentimento amoroso recupera a tradição lírica, mas se ajusta à visão contemporânea ao
invocar o interlocutor para uma tomada de posição
questionar a validade do envolvimento romântico
diluir em banalidade a comoção de um amor frustrado
transformar em paz as emoções conflituosas do casal
condicionar a existência da paixão a espaços idealizados
O poema lista cenários grandiosos para o fim de um amor e termina no gesto miúdo de juntar migalhas da mesa: a dor diluída no banal.
Por que a C é a certa
A tradição lírica pediria um cenário à altura da dor: jardim japonês, noite de tempestade, praia de pedras, janela para o abismo. O poema lista tudo isso como o que "era necessário". Mas o fim acontece numa mesa de café, e o gesto final é recolher migalhas de pão. A comoção do amor que acabou se dissolve na cena comum do dia a dia. Esse é o ajuste à visão contemporânea.
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